e então lembramos dela...

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Eu tenho muita dificuldade de consumir conteúdos novos, sou daqueles que abre o dashboard da Netflix e fica meia hora olhando, olhando... olhando e acaba assistindo aquele mesmo episódio de Vikings, isso quando não simplesmente desisto de assistir um episódio vou rever as cenas especificas no YouTube.

Mas esses dias eu revi uma cena que me impactou muito, eu sei que as pessoas têm um certo ressentimento em relação ao D&D (David Benioff e D.B. Weiss) pelo que eles fizeram com o final de Game of Thrones, e de fato, o final peca em muitas coisas, especialmente como ele joga fora oito anos de desenvolvimento de personagem, sequencias que não fazem sentido, até erros de continuidade... Enfim, não vim aqui reclamar de como a série acabou mal, e como me dói não ter o sexto livro nas mãos até hoje (aí, aí, ventos de inverno, já virou um sonho febril...)

Na verdade, queria citar uma cena específica, de quando a série era incrível, e o D&D estavam "On point" na adaptação, existem diversas cenas ótimas que não existem nos livros, ou que são completamente diferentes como a Arya trabalhando para o Twyin, a dinâmica dos dois era maravilhosa.

Mas a cena em questão acontece na primeira temporada, e é um dialogo entre a Cersei e o Robert, e revendo essa cena recentemente, senti haver sido atropelado por um trem.


Eu gosto muito como o romantismo ou mesmo o amor, se apresentam em GoT, um romance ilusório, idealizado, com ênfase na emotividade e individualismo, algo que remete muito ao romantismo clássico do séc XIX, aquele olhar que se volta ao antigo, buscando validação na crença indomável do nosso espirito, e algo que os movimentos românticos possuíam era uma grande idealização do passado. E isso pode ser visto em diversos momentos, alimentando as motivações de todos os personagens. Durante toda a série podemos ouvir como os personagens lembram de como o Westeros era próspera e pacifica, e agora encontra-se em decadência e guerra, vemos isso na muralha quando Jon se une a seus irmãos patrulheiros e se surpreende ao ver que aquela irmandade de grandes guerreiros que ele ouvia nas histórias e nos livros não passa de um grupo de criminosos condenados a morte que não viram outra opção a não ser entrar na patrulha da noite.

Existem outros personagens impactados por esse saudosismo romântico, mas o Robert é aquele em que isso é mais latente, de todas as atrocidades que o rei louco, Aerys II cometeu, o que motivou sua "Rebelião", que acabou em uma guerra civil em Westeros, foi a captura de sua "amada", e a quem sua mão havia sido prometida, Lyanna Stark, ao descobrir que o principie Rhaegar há teria capturado, Robert juntou seus exércitos e partiu em direção a porto real, onde se encontrou com os exércitos Targaryen liderados por Rhaegar, que acaba falecendo após ser acertado pelo martelo de guerra de Robert, dizem ser possível encontrar os rubis que compunham a armadura de Rhaegar até hoje nas margens do Tridente.

Mas mesmo 15 anos depois,  Robert, que se tornou uma sombra do grande guerreiro que fora um dia, se encontra consumido pela sua decadência, continua sendo assombrado pelo fantasma de Lyanna Stark. Um homem sozinho, cercado por mentirosos, bajuladores e traidores, que conspiram contra sua pessoa, mas que vive alimentando um amor que nunca existiu, que apenas poderia ter sido. Mas a verdade dura, cruel e triste, é que Robert nunca amou Lyanna Stark, e todo esse ressentimento e dor de perda em que o personagem dele é construído, é apenas uma mentira que ele conta para si mesmo.

Durante uma grande tempestade, um homem caminha em uma floresta, exausto e ferido, em busca de abrigo, após encontrar uma habitação rude, de arquitetura rústica e que possuía uma grande árvore que crescia no centro da construção, o homem, sem ter muitas opções, decide pedir abrigo e comida, ao bater na porta, ele é recepcionado por uma bela mulher, eles não se conhecem, mas imediatamente sentem algo um pelo outro.

A mulher diz para o homem que seu marido, Hunding, um caçador brutal, a quem havia sido obrigada a se casar, não estava em casa no momento, mas que devido às leis de hospitalidade, ele iria oferecer comida e abrigo para o homem.

Após retornar, relutante, Hunding oferece hospitalidade para o homem, porem ele nota haver algo entre esse estranho e sua esposa, esposa essa que vivia muito infeliz, afinal ela havia sido obrigada a se casar com Hunding, que era um homem grosseiro e vulgar, de uma família grosseira e vulgar, enquanto ela era de uma linhagem, uma nobre, filha dos deuses.

Mas mesmo com desconfiança, Hunding aceita a estadia do estranho, e pede que ele conte sua história, e ao se apresentar o estranho se revela Siegmund, o filho do lobo, que anda pela terra em busca de seu pai e combatendo injustiça. Siegmund revela que está ferido, pois, enfrentou uma família que estava forçando uma jovem a se casar, e que ao impedir aquilo ele acabou matando alguns membros dessa família, nesse momento Hunding se enfurece e diz que ele mesmo fazia parte dessa família e diz a Siegmund que ele teria apenas um dia de hospitalidade, mas que ao amanhecer os dois iriam se enfrentar até a morte. Hunding se levanta e ordena que sua esposa, Sieglinde o sirva uma bebida quente, e Sieglinde já estava apaixonada por Siegmund, e desesperada, por medo de seu marido matar o amar da sua vida, envenena a bebida dele com uma poção do sono.

Após Hunding adormecer, Sieglinde, vai desesperada até o homem e expressa sua preocupação, e compartilha a sua infelicidade, de como havia sido capturada e forçada a se casar, e como estava apaixonada pelo estranho visitante, e que temia que o seu amor, seria morto pelo seu odioso marido, mas ela sabia onde conseguir encontrar uma arma, conta que durante seu casamento, um homem estranho, sem um dos olhos, apareceu e fincou uma espada nos freixos da grande árvore que crescia em sua casa, e que ninguém, nem seu marido, havia conseguido a remover, e ela acreditava que aquela espada se destinava ao herói que iria salva-la, ao amor da sua vida, e sim Siegmund consegue remover a espada. Após isso ambos fogem, sabendo que Hunding viria em seu encalço em busca de vingança, mas isso não importava, pois, ambos conseguiram despertar a vontade, ao encontrar a sua alma gêmea. 

Você deve estar se perguntando: Marcos, do que você está falando?

Sobre amor ué. Eu contei a história de Sieglinde e Siegmund, porque sinto, que muitos buscamos esse amor, essa alma gêmea. Buscamos despertar a virtude da vontade, encontrando energia no amor oferecido pelo outro, e a verdade dura, é que isso é apenas uma ideia, um mito que nós somos impostos, nos tornando refém dessa ideia, tal qual o Robert se tornou refém da sua idealização por Lyanna.

Canonicamente na história, Robert e Lyanna mal se conheciam, ele apenas havia visto ela em um torneio, e eles mal passaram algum tempo junto para se conhecerem melhor. O que Robert amava era a ideia de Lyanna, ela era o construto de tudo aquilo que ele queria em uma mulher, em uma esposa. Seu casamento com ela era a única forma dele se tornar irmão por casamento do único homem a quem ele respeitava, Ned. Ele contando a mentira de que ele a amava, até que ele passou a acreditar nisso, e ele fazia isso, por que era a opção fácil, era a forma que ele conseguia explicar para si mesmo a sua miséria, suas falhas e vícios. Ele é um alcoólatra porque ele perdeu o amor da sua vida, ele é infiel porque Cersei jamais será a mulher que Lyanna era e ele é um péssimo rei porque a coroa perdeu o propósito quando sua amada faleceu.

Para Robert, inconscientemente, seu apego a Lyanna Stark era apenas uma mentira para explicar todos os seus problemas enraizados e aliviar suas próprias falhas como rei, marido e pessoa. Ele é apenas um homem triste que sente falta de um passado que não existe mais e quem tem medo de assumir as responsabilidades que a vida impôs-lhe, dessa forma se impedindo de seguir. Culpando tudo no amor perdido é apenas uma mentira confortável que ele passou tanto tempo contando aos outros que ele mesmo começou a acreditar. Isso é especialmente mais deprimente quando mais tarde descobrimos que na verdade Lyanna era apaixonada por Raeghar e não havia sido capturada por ele, mas sim fugido para viver um amor proibido.

A grande conclusão que eu chego, na verdade não tenho nenhuma, mas tenho que terminar esse texto... eu acho. É que esse amor ideal não existe, o amor real é uma escolha que deve ser feita diariamente, quando uma pessoa entra em nossa vida, não devemos esperar que ela seja aquilo que sempre desejamos, mas sim escolher torna-la a pessoa que sempre quisemos, e essa é uma escolha que fazemos diariamente. Mas ao fazer isso se apaixone pela pessoa real, e não pela ideia que você cria dela.

Algo que percebi que geralmente a dor da perda, não vem da pessoa, mas sim da forma como ela nos fazia sentir, aquela sensação de pertencimento e completude, mas isso acaba eventualmente, e quando o amor idealizado acaba o que sobra é a realidade, e nesse momento podemos amar a pessoa real e não a ideia que temos dela, pois uma alma gêmea não existe, e o que devemos superar o nosso passado e não nos fecharmos em um ciclo de ressentimento, conheça pessoas novas ou aprenda a viver sozinho, pois no fim, sabemos como ambos Robert e Siegmund terminam.

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SEE YOU, SPACE COWBOY...

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