É agora, Madeline.
Respira.
Por que está tão nervosa?
E assim, se inicia a jornada de Madeline em busca de sua Ítaca, conquistar o monte Celeste.
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Não há nada pior do que excessos. Excesso de passado nos deprime, excesso de presente nos sobrecarrega e o excesso de futuro nos paralisa. E esse excesso de futuro, que chamamos de ansiedade, é um dos grandes males da atualidade e responsável por muito sofrimento.
Estamos vivendo um momento único, em que somos obrigados a colocar nosso foco total em um futuro incerto, gerando um presente ausente, esvaziado pelas nossas expectativas. Eu sei que o ideal está no futuro, mas ele não deveria ser o nosso objeto de desejo, apenas uma referência de direção, um farol. Afinal, existe algo para alcançar com tanta pressa amanhã que justifique perder o hoje?
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Lançado em 2018, Celeste é um jogo de plataforma independente (award winner), desenvolvido pelos canadenses Maddy Thorson e Noel Berry, com arte feita pelo estúdio brasileiro MiniBoss (arte MARAVILHOSA por sinal) e trilha sonora feita pela Lena Reine (igualmente incrível btw).
No jogo acompanhamos essa menina chamada Madeline, que está em uma jornada de escalar a montanha Celeste, por que? pra que? Nem ela mesma sabe, mas é algo que ela precisa fazer, e bem, iremos ajudá-la.
A premissa é bem simples, assim como suas mecânicas, mas Celeste é um jogo de alusões, desde sua dificuldade altíssima até seus personagens e história. E a principal alegoria que Celeste faz é a vida. Mecanicamente é um jogo sobre superar obstáculos, independente de quais, até alcançar aquilo que se almeja. Às vezes você erra e cai, ou dá de cara com espinhos, “morre” mas levanta, volta pro início e então tenta de novo. Recomeça, e tenta de novo, talvez inúmeras vezes, mas apesar da vontade de desistir, você tenta de novo…
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Mas algo que nos transporta para dentro do jogo é a forma como os medos e anseios de Madeline se transmitem de forma honesta, suas crises de pânico, ataques de ansiedade, aquele eterno medo de que a falha é inevitável e que o ideal seria apenas desistir. Especialmente quando o seu principal obstáculo é a si mesma.
O momento mais impactante da história se dá quando Madeline decide abandonar seu lado negativo, Badline, que até aquele momento vinha sabotando sua jornada, porém ao perceber que não seria capaz de exprimir seus pensamentos negativos e sabotadores, acaba paralisada pelo medo e sendo jogada no ponto mais baixo da jornada (literalmente).
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O título desse texto faz referência a um poema chamado Ítaca, do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933). Nesse poema ele sintetiza a Odisséia escrita por Romero, onde o protagonista Ulisses, tem como objetivo retornar a sua casa em Ítaca, a brilhante, após uma longa campanha contra Tróia, na história, Ulisses leva dez anos para retornar, e passa por dezenas de aventuras, bem, passa por uma verdadeira odisseia.
Mas no poema, Konstantinos explora a idéia de que o importante não é o objetivo, não é a chegada em Ítaca, mas sim a viagem, mas sim, a jornada:
“Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saberes.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresse a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeadas na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.”
Constantino Kavafis (1863-1933)
O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.
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E é, sobre isso, o segredo para acabar com a ansiedade, pelo menos, poeticamente falando, é descobrir o que significam Ítacas.
Nós todos, temos nossos objetivos, mas eles só são alcançados através das estações e portos que ancoramos bem, e devemos sempre focar em recolher o melhor da viagem, sem pressa, saboreando cada momento, cada vivência. Ítaca, a brilhante te deu isso, ela serve como a nossa referência de direção, o farol que ilumina todo o nosso caminho.
E assim como Madeline, ao chegar ao cume da montanha, o topo de Celeste, uma bela vista, um momento de reflexão, de introspecção, mas no fim, o importante fora a jornada, não chegar ao topo, não chegar a Ítaca.
Enfim, como eu disse, é fácil falar, difícil fazer. Mas não custa tentar, tentar descobrir quais são suas Ítacas, e talvez assim, conseguir dominar a montanha, nossa Celeste.
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